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Link para a entrevista dada na Revista Idiossincrasia

Original da entrevista dada ao poeta Heitor Ferraz para o site Trópico

Nasci no Rio de Janeiro, em Agosto de 1963. O sobrenome ilustre vem do meu bisavô
por parte de pai, Edgar Roquette-Pinto, que foi, entre outras coisas, antropólogo, cientista, desbravador (em todos os sentidos), além de ser o responsável pela implantação da radiofonia no Brasil – em suma, como o entitulou Rui Castro, num artigo fascinante sobre suas múltiplas atividades, um “homem-multidão”.

Meu interesse pela poesia (a formal, escrita, propriamente falando) começou cedo na vida, acho que tão logo me alfabetizei. Mas quanto mais o tempo passa, mais claramente consigo perceber o quanto, desde tenra idade, eu já “sofria” de uma apreensão poética do mundo. Ou seja, a criança que eu fui já percebia a realidade ao seu redor com olhos ao mesmo tempo de absoluto maravilhamento e de estranhamento agudo, com muita atenção aos detalhes, e uma nitidez às vezes arrasadora. Uma das minhas companhias favoritas eram os livros, e nisso fui muito estimulada por minha mãe, que sempre me dava livros de presente (e, diga-se de passagem, sabia escolhê-los muito bem). Não sei quantas vezes li e reli
Ou Isto ou Aquilo, livro de poemas infantis da Cecília Meireles, e devorei a coleção completa do Monteiro Lobato, além de uma série da Abril Cultural com clássicos da literatura juvenil, como O Conde de MonteCristo, Ivanhoé, A Ilha do Tesouro, As Aventuras de Tom Sawyer e Mulherzinhas, entre muitos outros. Um dia, numa feirinha de livros, o meu avô Guilherme me deu de presente um livro de poemas do Mário Quintana que era a história de um pato, acho que o nome do livro era Pé de Pilão, ou coisa que o valha. Mas me lembro de delirar de felicidade lendo as rimas e o desenrolar das aventuras daquele pato para a minha irmã e a minha prima, que eram mais novas. Líamos também a Maria Clara Machado, a Raquel de Queiroz, o Orígenes Lessa, e havia uma coleção de livros de bolso da Ediouro com uma série de títulos interessantes para crianças e jovens. Lá pelos 9 anos, A Estrela da Vida Inteira, de Bandeira, era uma espécie de livro de cabeceira para mim - além dos versos de Bilac e, um pouco mais tarde, os sonetos de Shakespeare, na tradução de Ivo Barroso. Enfim, lia muito e sempre.

E por causa disso, desde cedo também comecei a escrever. Não sabia que nome dar àquelas coisas que fazia, e nem estava absolutamente preocupada com isso – era, realmente, uma atividade puramente lúdica e livre, muito prazerosa, natural mesmo. Até hoje, quando me ponho a escrever, tento recobrar um pouco dessa energia infantil de desprendimento, embora seja claro que aquele estado bruto de inocência e de falta de preocupação com o resultado, jamais poderá ser recuperado, de forma completa, num escritor adulto.

Fui estudar Letras na PUC, mais especificamente Tradução Literária, apenas porque não sabia exatamente o que fazer com a minha vocação. Sabia de antemão que o que quer que fizesse, profissionalmente, teria que estar ligado à escrita. Mas não tinha a cara de pau de me achar à altura de grandes vôos - ou seja, não ousava pensar que pudesse me tornar o que hoje, a duras penas (e nem que seja por insistência), tenho que me considerar: escritora.

Assim que fui aprovada para a PUC, com dezessete anos, tranquei matrícula e fui morar, por sete meses, na cidade de São Francisco, na Califórnia. Era um sonho de adolescência, e meus pais me deram a maior força - inclusive financeira. Fiquei me aprimorando na língua inglesa, estudando “cultura americana” e morando com três outras universitárias americanas na San Francisco State University, inteiramente imersa no “american way of life”. Mas nessa época, a poesia propriamente dita não era algo que eu tinha “assumido”.Naquele momento o mais importante pra mim era viver, acumular experiências. Foi uma época bem aventureira.

Quando lancei Os Dias Gagos, estava com 28 anos. Não publiquei nada antes disso, não só por já ter ouvido aquela máxima de “não publicar poesia antes dos 25” e concordar inteiramente com ela, mas também porque sempre tive uma certa desconfiança da arrogância juvenil. E, com o passar dos anos ( e dos arroubos da juventude) vi muitas pessoas que se consideravam poetas com p maiúsculo soçobrarem de modo desalentador. Embora este seja um livro que considero imaturo - já que na verdade é mais um apanhado do que eu sabia fazer e estava fazendo na época, do que, propriamente, um livro com um projeto - graças a ele pude me inaugurar como poeta e romper com uma certa angústia da influência que, para o autor novo, pode ter efeito paralisante.

Quem eu lia por essa época eram autores com quem vinha convivendo desde os 18, 19 anos – além dos onipresentes Bandeira, Drummond, Cabral, Gullar, Vinícius - Cassiano Ricardo, Garcia Lorca, os sonetos de Florbela Espanca, Emily Dickinson, Sylvia Plath, Rimbaud, Baudelaire, Rilke, Yeats ... E, na prosa, muita Clarice, Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Fernando Sabino, F.Scott Fitzgerald, Dorothy Parker.

Num certo sentido, a minha maneira de encarar a poesia não mudou muito, não. Acho que isso se deve a dois fatos: o primeiro deles é que escrever poesia sempre foi algo muito vital para mim, uma atividade que executo por necessidade, uma coisa quase orgânica ( e a título de brincadeira, gosto de citar, a esse respeito, um comentário escatológico do Auden, que diz que os poetas gostam de seus próprios poemas assim como as pessoas em geral costumam gostar do cheiro de seus próprios gases...). O segundo é que, no meu processo de escrita, existe um grau de indeterminação, uma certa “inconsciência”, que está sempre presente, e a qual me habituei a seguir sem questionar – mais ou menos como quando estou fazendo uma leitura de tarô para alguém. Preciso de uma completa disponibilidade interna para que a coisa se dê. E sei que, se ficar por demais atada a um “objetivo”, essa naturalidade irá se perder. Embora é claro que geralmente tenho uma “meta” – melhor dizendo, uma vaga idéia do que quero obter com aquele ato de escrita. Mas há sempre uma infinidade de fatores que se interpõem, alguns deles acidentais, mas todos sempre internos ao poema, que acabam me levando numa direção diferente, insuspeita a princípio. Em suma, para tentar responder à sua pergunta: sei que ao escrever estou tecendo uma urdidura, mas não é apenas a minha mão a fazer o trabalho.

Você perguntou sobre a construção do poema... A minha sensação, ao tentar escrever um poema, é sempre a de uma “caçada”, uma aproximação. Quando a idéia do poema aparece na minha mente, procuro me pôr em total disponibilidade (infelizmente nem sempre isso é possível), e fazer o menor “ruído”, o menor movimento possível, digamos assim, para não espantar o bicho. Já usei algumas vezes a comparação com uma cena do Mogli, o desenho animado da Disney, para me referir ao poema. Na cena em que o tigre é apresentado, quando ele entra na história, não é visto logo por inteiro, mas através de uma floresta de bambus. O que vemos primeiro, então, são aquelas listras amarelas e pretas se movendo, sorrateiramente, no meio do bambuzal. Só depois é que o tigre, em toda a sua plenitude, aparece. Pois escrever o poema, pra mim, é exatamente isso: ver as listras passando por entre os bambus e tentar, a partir delas, enxergar ( e dar a ver) o tigre inteiro – já sabendo de antemão que o poema será tão-somente o resultado fugaz e aproximado deste relance.

Quanto à palavra surgir exata – bem, pode acontecer de tudo. Às vezes, devido a um golpe de felicidade, a alguma sincronicidade que a gente nem sabe bem o que fez pra merecer, o poema já nasce quase pronto, com uma pequena necessidade de revisão. Em outras (a maioria), a reescritura é obrigatória para que aquilo possa ser chamado de poema.
E não necessariamente devido à exatidão das palavras em traduzir a idéia em si, mas também por uma questão de sonoridade, ou de ritmo.

Confesso que não sei explicar porque a minha poesia se enreda tanto com as flores. Só sei que foi assim desde sempre. Será que tem alguma relação com o fato de eu ter crescido numa casa com um jardim grande (a casa dos meus avós)? Ou porque costumo passar grandes temporadas numa fazenda? Mas falando sério, sei que poderia alinhavar um infinidade de razões, salpicar aqui e ali algumas interpretações psicanalíticas - ou mesmo espiritualistas- tentar buscar referências na literatura, mas tudo isso seria uma tentativa de explicação a posteriori, uma teorização sobre algo (você usou a palavra obsessão, mas prefiro pensar num processo de formulação simbólica, numa identidade) que prefiro deixar no campo do desconhecido.

Mas concordo com você quando menciona a interioridade e as alusões à sexualidade presentes em Saxífraga. Ali eu estava investigando, ou melhor, tentando acompanhar, com o poema, vários tipos de movimento de aproximação, desde os mais óbvios - como, por exemplo, o da abelha com a flor, o de um homem com uma mulher (de aproximar-se e ser convidado a penetrar num mundo desconhecido- e não apenas no sentido literal, genital desta idéia), o do pintor (ou pintora) com o seu “tema”, etc. E todos eles representam, em última análise, o movimento do poeta (ou da poeta?), tentando chegar junto de um cerne, um sentido que é, por natureza, fugidio, e, talvez, por isso mesmo, extremamente sedutor. Gostaria de pensar que, como poeta, posso não precisar me perder de todo desta criança que se debruça para examinar (como você tão belamente colocou) “a vida prodigiosa que palpita dentro dos frutos” . Veja olha só o meu poema tomatl , por exemplo. A propósito, a Maçã de Bandeira é um dos meus poemas favoritos ( e quase foi uma das epígrafes do livro...)

Fico contente de você ter percebido alguma “maior clarividência” em Zona de Sombra, pois ele foi um livro onde o meu desafio era falar de um processo de abordagem do mundo (no caso, a poesia) –que não está, de forma alguma, dissociada da vida, mas imersa nela- sem abrir mão de uma certa “penumbra”. E, sim, você está correto ao pôr o dedo sobre a palavra equívoco, apontando-a como uma espécie de pista que deixo para o leitor (em alguns momentos, até sem querer). Isso porque, embora possa reconhecer, num nível relativo, que escrever poesia é algo em que me engajei nesta vida (para o bem ou para o mal) e que não há assim tantas outras coisas que eu pudesse (ou desejasse tanto) fazer - além de acreditar que, ao descobrir algo sobre a minha natureza, ou sobre a natureza da linguagem, eu possa estar trazendo uma contribuição, ainda que minúscula, para uma comunidade (também resumidíssima) de seres humanos, ou de falantes de um mesma língua -, bem, isso não me impede de ter, no horizonte, o reconhecimento de um certo fracasso. Da inutilidade mesma desta prática, quando considerada num nível absoluto. Daí essa visão do poema como um equívoco – além, é claro, da outra acepção da palavra, envolvendo a idéia de ambíguo, de algo com um sentido não-determinado, não-fechado – que, acredito, é também característica da minha poesia.

Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

1 - "Oroboro - Revista de poesia e arte", nº 3, março/abril/maio de 2005. Editada em Curitiba e distribuída pela Iluminuras.
2 - Idem.
3 - Idem.

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CLAUDIA ROQUETTE-PINTO

ENTRELIVROS: A poesia realizada por mulheres no Brasil nunca esteve tão forte. O que dificulta a percepção do conjunto?

CLAUDIA: Não sei se concordo que esta dificuldade (de se perceber o conjunto) diga respeito apenas à poesia realizada por mulheres no Brasil. O que ocorre é uma certa falta de visão panorâmica da poesia brasileira (contemporânea) – não só da parte dos leitores, mas até mesmo pelos próprios poetas. Mas acho que isso ocorre por motivos diferentes. As repercussões da poesia na vida do público em geral, não-especializado, são muito subterrâneas, não fazem alarde. Poesia não tem, nem nunca teve, um forte apelo midiático. Nem tampouco um grande número de apreciadores. As tiragens são geralmente pequenas (de, no máximo, 1.000 exemplares,e, na maioria das vezes, 600) - porque não costumam ser, do ponto de vista do editor, interessantes financeiramente. O que acaba acontecendo é que apenas os editores mais conscientes de seu papel cultural vão escolher publicar livros de poesia – muitas vezes contando com recursos do próprio poeta (ou de algum patrocínio ou subsídio acadêmico). E o melhor proveito que poderão tirar dessa iniciativa (afora a boa consciência de estarem contribuindo para enriquecer o patrimônio da sua língua e, portanto, do seu país) vai ser um prêmio, ou um certo prestígio. Na era da imagem soberana, na qual a qualidade de uma obra é equivocadamente avaliada por números grandiosos e muitas estatísticas (basta lembrarmos das eternas listas de best-sellers), a poesia parece estar ainda mais escondida, ainda mais restrita ao seu “gueto”. Mas isso nunca foi muito diferente. Afinal, poesia é “tecnologia de ponta da linguagem”. E como diz o poeta W. H. Auden, em seu bem-humorado ensaio Escrever, do livro A Mão do Artista: os matemáticos é que são felizes, pois “nenhum caixa de banco escreve carta para a imprensa reclamando do hermetismo da Matemática Moderna, comparando-a, em termos desfavoráveis, aos dias de ouro do passado”.

Já no caso dos próprios poetas, acredito que todas as demandas feitas a um escritor pela vida atual (desde a coragem de escrever “contra” a angústia da influência, a perda de referenciais confiáveis, a crise da linguagem, etc, até a necessidade de conciliar um trabalho intelectual criativo tão exigente quanto o da poesia com uma atividade econômica que lhe garanta a sobrevivência) crie uma escassez de tempo e recursos tal que o impeça de acompanhar mais satisfatoriamente tudo o que está sendo feito no momento (isso para não mencionar as dimensões continentais do nosso país, o que pode gerar um certo isolamento). Mas acredito que, através do boca a boca, dos contatos entre amigos, da internet, das revistas de poesia e de iniciativas acadêmicas, enfim, o que é bom e relevante acaba aparecendo, as pessoas acabam se “encontrando” e os trabalhos passam a dialogar. No âmbito da poesia, as coisas sempre se deram mesmo de forma meio marginal e caseira - o que, por um lado, pode ser positivo: os poetas e os leitores de poesia acabam residindo num espaço livre, anti-mercadológico, como um grupo de apaixonados defendendo uma causa heróica - uma espécie de Resistência Francesa.

ENTRELIVROS: Com exceção de Cecília, todos os grandes poetas brasileiros unânimes são homens: Drummond, Cabral, Bandeira. Há machismo na leitura crítica da poesia feita no Brasil?

CLAUDIA: Qualquer que fosse o sexo de um poeta contemporâneo, o fato é que seria dificílimo, seria até covardia, tentar equiparar-se à relevância literária desses craques! Não sabemos se um dia as condições especialíssimas que criaram esse nível de excelência ainda poderão se repetir neste país. Mas, tomando por base a minha experiência pessoal, mais do que da falta de antecessoras (que são, sem dúvida, numericamente inferiores aos seus companheiros do sexo masculino, mas estão aí), acredito que as poetas de hoje ainda se ressintam de uma certa dificuldade de recepção por parte da crítica. A poesia feita por mulheres no Brasil não conta com uma fortuna crítica eqüitativa - salvo raríssimas exceções, como no caso da Cecília Meirelles, que você mencionou, e, talvez, no da Ana Cristina César e no da Adélia Prado. Como iniciativa admirável na contracorrente deste fenômeno, cito o Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho.

Até mesmo aquelas poetas que fogem como o diabo da cruz às tentativas de caracterizar seu trabalho nos termos de uma “poesia feminina” parecem ficar restritas à boa vontade de algum crítico mais benevolente, tendo sua produção abordada de forma ligeira e abrangente, como parte de um grupo de outras autoras (e, se resenhadas na imprensa, muitas vezes em meio a outros dois - ou mais - livros). Ou então inserida em alguma categoria dos “estudos culturais”. Sempre me pergunto, ao receber convites para este tipo de discussão, o porquê de ainda haverem tantas mesas redondas sobre “poesia feminina”. Você, Fabrício, já foi alguma vez convidado para participar de um debate sobre a “poesia produzida por homens”?

ENTRELIVROS: Cecília Meirelles, Hilda Hilst, Adélia Prado, Orides Fontella, Dora Ferreira da Silva, Cora Coralina, Marly de Oliveira, entre tantas. Por que a poesia da mulher no país ainda é vista como essencialmente confessional, se a diversidade de estilos sempre foi a regra?

CLAUDIA: Só pode ser por preconceito, vício ou preguiça intelectual. Porque, afinal, embora existam certas vivências que são exclusivamente femininas, o fato é que, se o poema for bom, estas vivências- assim como aquelas exclusivamente masculinas - vão apenas servir de ponto de partida para o desvelamento de alguma experiência mais ampla, essencialmente humana. Além do mais, acredito que o olhar das mulheres está, historicamente, se tornando a cada dia mais diversificado, mais abrangente. E acredito que na literatura feita por elas este olhar, justamente porque cada vez mais confiante, também esteja se tornando um tanto mais livre e auto-irônico.

ENTRELIVROS: Sua poesia está no tempo e espaço certos? Onde e em que período gostaria de escrever?

CLAUDIA: Puxa, só espero que sim! Procuro escrever com a consciência do meu tempo, das questões deste tempo (como mencionei mais acima, a da crise da linguagem, por exemplo). E acredito que o meu livro mais recente, Margem de Manobra, seja inclusive, entre todos os que escrevi até agora, o que mais obviamente procura responder a essa questão de inserção no seu próprio tempo. Mas acredito que esse julgamento possa ser feito melhor pelos meus três leitores ... (risos)

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Das coisas de dentro do dia-a-dia
por marcelo sandmann

A entrevista a seguir foi realizada via e-mail, com alguns largos lapsos de tempo entre perguntas e respostas, ao longo do segundo semestre de 2004. Nela, Claudia Roquette-Pinto fala (e cala) sobre variados assuntos, de sua formação literária e leituras preferenciais às transformações operadas ao longo do tempo em sua poesia, tocando aqui e ali em matéria de ordem mais pessoal, episódios traumáticos que, como confessa, terão sido decisivos para os caminhos tomados por sua obra mais recentemente. A aproximação com o budismo é outro tema interessante, passível de maior consideração, mas que vai aqui apenas levemente tocado.

No desfecho da entrevista, meio em abrupto, provocado pela própria poeta (acredito que pelo rumo que nossa conversa foi tomando), Claudia reproduz o poema "Sítio”, poema publicado originalmente na revista Sebastião n.o 2 (São Paulo, 2002). Para esclarecimento do leitor, já que há alusão ao fato nas derradeiras palavras da entrevista, trata-se de texto que foi por mim analisado com alguma minúcia na referida revista de poesia e crítica, na seqüência da publicação do poema em questão e de alguns outros inéditos. Responder-me com esse mesmo texto, aqui, pareceu-me um curioso modo (voluntário / involuntário?) de retomar o motivo circular da OROBORO (ou Uróboro, como mais comumente se grafa), que afinal dá nome à presente revista de poesia e arte. Talvez, de fato, atados ao Samsara, estejamos todos girando em falso.


OROBORO "Estou farta do lirismo descomedido / tão afeito à geografia umbilical!" Leio estes versos, paródia do conhecidíssimo "Poética”, de Manuel Bandeira, poeta de sua estima, em "a lei da polis”, poema de juventude que você declarou, noutra ocasião, ter em muito pouca conta. Este poema, que trata de Ana Cristina César, e que vem logo após dois outros, o primeiro dedicado a Sylvia Plath e o segundo a Adélia Prado, nomes importantes de uma poesia em clave claramente feminina, está no seu primeiro livro, Os dias gagos, de 1991, ao qual você, depois de tantos poemas e outros livros, também faz sérias restrições. Por isso mesmo, meio provocativamente, começo por aqui. A que "recusas”, exatamente, você vem submetendo a sua poesia desde então?

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO As restrições que faço a Os dias gagos vêm da minha consciência de que, como livro, aquele foi um projeto imaturo. Digo isso porque o considero, claramente, um "primeiro livro" - um apanhado de poemas, escritos ao longo de um período relativamente longo, mas sem uma noção mais clara das minhas intenções - sem, em suma, um "projeto”. A virtude daquele livro, se podemos dizer assim, é exata (e talvez unicamente) o fato de ser ele isso mesmo: "o primeiro" - com toda a ingenuidade e bravura (e a bravata?) que publicar um primeiro livro requer. Quanto ao poema para Ana Cristina César, mais especificamente, considero-o um poeminha fraco, ainda num tom de ruptura bastante adolescente - mas foi preciso, naquela época, para mim, aluna de Letras na PUC-Rio e freqüentadora dos seus pilotis, questionar o que percebia como um culto indiscriminado à pessoa da Ana Cristina - que, a meu ver, sobrepujava uma apreciação mais producente da sua poesia. Enfim, foi uma bobagem, sem maiores conseqüências.

Na minha trajetória de trabalho, venho, realmente, submetendo a poesia que faço a diversas recusas, que decorrem, naturalmente, da necessidade de não ficar me repetindo até a náusea. Assim, cada nova "recusa” brotou de um movimento legítimo de busca do novo, daquilo que, no momento - e a partir do que havia sido descoberto, experimentado ou "ganho" (ou gasto) por mim no livro anterior - estava no momento presente me interessando. Do primeiro livro, formal mente mais estruturado em cima de rima, métrica, etc. - reflexo dos autores que freqüentei nas minhas leituras infanto-juvenis - "pulei" para uma poesia exageradamente fragmentária, em débito com a poesia concreta e com outros experimentalismos formais que me fascinavam na época - e daí surgiu Saxífraga. Depois, foi a vez da virada na direção de um "hermetismo crepuscular”, conseqüência do meu apaixonamento pela poesia de Georg Trakl, Hölderlin e Paul Celan - e, sem sombra de dúvida, de certas questões particulares que já me habitavam -, e o resultado disso foi uma Zona de sombra. Por fim, no deságüe de várias experiências de vida dolorosas - entre elas o seqüestro da minha única irmã (felizmente, com a volta dela, "na íntegra”, tanto física quanto mentalmente) e depois de um período de "retiro" de quatro meses numa fazenda fora do Rio -, pude me arriscar com mais coragem na direção de uma voz mais independente, mais verdadeiramente minha – muito embora, acredito, sem com isso abrir mão de certas características que vêm me acompanhando de livro em livro: a musicalidade dos versos, a escolha de imagens muito plásticas, um certo, inarredável, "hermetismo" - e a tão mencionada "sensualidade” que alguns críticos atribuem ao meu texto... Mas outro dia tive uma "redenção": compreendi que não é a minha poesia que é, necessariamente, sensual. A minha relação com as palavras é que sempre foi uma relação erotizada.

OROBORO O amadurecimento da obra, portanto,vincula-se a uma práxis literária autoconsciente e continuada (a definição e realização do "projeto"), a que impactantes experiências de leitura e de vida vêm se somar (para além dos "imponderáveis" de todo processo criativo). Gostaria de aprofundar, num primeiro momento, um destes tópicos aqui: o das leituras, sobretudo as de poesia. São freqüentes as referências a criadores em seus livros (especialmente poetas e artistas plásticos). Leitura e criação são atos concomitantes para você? Você lê poesia programaticamente? Como se dá o acesso aos autores estrangeiros, como os "irredutíveis" poetas de língua alemã que você cita - domínio efetivo de outras línguas, edições bilíngües, traduções de punho próprio? Que poetas ainda não perscrutados estão em sua mira neste momento?

Claudia: A leitura de poesia para mim, a cada dia mais, é algo que procuro fazer guiada apenas pelo "instinto”. Ou pelo acaso, este amigo no qual aprendi a confiar. Está certo que, na época da faculdade de Letras (sou formada em tradução literária pela PUC-RJ), e no início da busca pela minha própria poesia, as leituras precisavam ser, necessariamente, mais estruturadas, planejadas - algo assim como uma tentativa (válida, porém risível) de "dar conta” de um certo cânone, etc. Com o tempo, fui é me dando conta da pretensão (e, até certo ponto, da inutilidade) dessa tarefa juvenil e passei a seguir cada vez mais a minha intuição. Assim, vou lendo a poesia que "me cai nas mãos" (seja passeando a esmo numa livraria, vasculhando uma biblioteca, ou recebendo um livro de algum autor que não conhecia antes), confiando que a coisa acontece assim mesmo. E leio aqueles autores em que vou "tropeçando" a partir de outras leituras. Como se estivesse seguindo as pegadas de alguém que já passou por aquela trilha antes.

Tenho uma coisa engraçada: uma mania de achar (ou saber) que o livro que estou precisando ler vai chegar às minhas mãos no momento exato. Não é incomum eu entrar numa livraria (qualquer uma, até de aeroporto) e dizer mentalmente "me mostre o livro que eu preciso ler agora”. Ou "quero ler um livro que vai mudar a minha vida” (Mais ou menos como aquele chavão de filme de ficção científica: "Leve-me ao seu líder!") E olha que sempre dá certo!

Quanto aos autores e artistas que cito, e não são poucos, a minha relação com eles é de puro apaixonamento. Eles são tão próximos a mim quanto pessoas que conheço. Isso é, obviamente, uma baita ilusão. Mas a sensação que tenho é bem essa. De que eles (elas) são meus amigos, ou meus professores, ou amantes. São, todos eles, responsáveis por algum rasgo de percepção diferente, por algum lampejo de compreensão ou intuição que - às vezes num nível mínimo, às vezes em teor altíssimo - influi na minha vida e na minha maneira de fazer poesia.

Tenho vários poemas que começaram a partir de versos maravilhosos que me arrebataram, ou frases de romances idem. No Corola (meu quarto livro), tem um poema que começa assim: "Sob o fermento do sol, as coisas / desprovidas de peso" - e essa, e todas as outras linhas que aparecem no poema em itálico, são frases retiradas, quase ipsis litteris, do romance O leopardo,de Tomaso di Lampedusa. No meu novo livro (em preparação) há um sem-número de referências, empréstimos e apropriações de autores e textos que vim lendo ao longo do caminho. De modo que a minha relação com a literatura tende a ser uma relação cada vez menos "arquitetada” reverente ou armada, e cada vez mais
caótica, cheia de intimidade, prazerosa.

Meu domínio das línguas estrangeiras não é, lamento dizer, nada vasto. Sendo tradutora do inglês, é óbvio que falo e escrevo correntemente nesta língua, além de compreender perfeitamente tanto o francês falado quanto o escrito. Mas não falo nem leio o alemão. E assim, as minhas leituras dos intraduzíveis (Paul Celan, Georg Trald, etc.) que você menciona se dá, ironicamente, através da tradução - seja para o inglês, seja para o francês ou o português. O Celan, por exemplo, tem um tradutor magnífico em inglês, que é o Michael Hamburguer.

Um poeta por quem me apaixonei há mais ou menos uns dois anos foi o Yehuda Amichai. A poesia dele me influenciou muito (não sei se isso será perceptível no meu próximo livro, mas, também, quem pode pôr o dedo exatamente sobre o ponto nevrálgico da nossa vasta rede de influências?). Tenho tentado traduzi-lo (do inglês e do francês), e gostaria de fazer alguma coisa com isso.

OROBORO Para além das referências a "criadores" (a leitura e a fruição estética como móveis da escrita), surgem também, com alguma freqüência, alguns "nomes próprios" nos seus livros, que remetem a todo um universo de relações pessoais (familiares, de amor, de amizade, etc.) e que você faz questão de ir registrando. Vale conferir, por exemplo, as dedicatórias dos três primeiros livros, ou ainda determinados poemas que você endereça a pessoas específicas, na maioria das vezes referidas simplesmente pelo primeiro nome. Ao lado disso, certas experiências fundamentais com o "outro" são tema de poesia. Por exemplo, a maternidade, nos poemas que compõem o segmento "quartos crescentes" (Os dias gagos); ou ainda a relação com o homem, na série de poemas intitulada"ele:" (Saxífraga). Mais atrás, você fez questão de ressaltar o impacto do seqüestro de sua irmã, entre "várias experiências de vida dolorosas no seu amadurecimento literário. Poderia falar um pouco dos modos como a sua poesia incorpora, refrata, re-elabora essas experiências vitais do sujeito?

Claudia: Não. Acredito que tudo o que precisa ser dito, já está dito ali, no livro. Mesmo que com algum grau de dubiedade, dúvida ou desconforto. É tudo ficção. E é por isso que tenho tanta resistência a fazer entrevistas. Não creio que nada que eu possa dizer seja realmente relevante - ou que vá alterar, para melhor ou pior, a percepção que o leitor terá da minha poesia. Além disso, nem sei se saberia explicar como é que se dá esse tal processo de "incorporação e re-elaboração”.

OROBORO Voltando ao item das "recusas” gostaria que você comentasse a observação a seguir, que talvez tenha lá o seu grão de impropriedade. Sua poesia parece passar ao largo, seja em termos de referenciais, seja em termos de linguagem, de elementos mais explícitos da cultura popular e/ ou de massas contemporânea. E isso tanto no que diz respeito àqueles ingredientes que habitualmente cimentam uma certa idéia de "localidade” ou "nacionalidade" (e o Rio de Janeiro, sua cidade, tem sido pródigo em fornecê-los), quanto "do esperanto pop internacional” ambos de avassaladora circulação e penetração. Para ser bem chão e explícito, coisas como futebol, música popular, televisão, cinema, imprensa diária, propaganda, internet, etc., e as formas e os jargões que lhes são próprios. Muitos autores (poetas e ficcionistas) constroem sua obra numa tensão crítica com tais elementos. Afinal, são signos fortes na "paisagem”, com os quais você, para além da poesia e dos livros, muito certamente deve conviver no dia-a-dia.

CLAUDIA Estava hoje conversando com uma pessoa amiga, que não é poeta, nem da área literária, e comentávamos justamente sobre essa cobrança que costuma ser feita a respeito da minha poesia, de ser uma poesia que "paira”, que não aparenta ter qualquer relação com o dia-a-dia, por exemplo, de uma cidade como o Rio de Janeiro. Uma poesia não-referenciada, que não "mora” em lugar nenhum. E ela de lá me dizia que achava que a minha poesia falava muito das coisas do dia-a-dia, sim, mas de um dia-a-dia de dentro.

Achei legal essa impressão, vinda de alguém que não tem nenhuma “deformação" profissional, nenhum vício crítico - essa visão, digamos, desinformada. Fiquei pensando em várias maneiras de responder à sua pergunta. Poderia, por exemplo, argumentar que, depois que me tornei uma praticante do Budismo Tibetano, entendi melhor algo que, ao escrever, já sabia sem saber - que o que costumamos chamar de "realidade” é apenas uma construção mental. Um acordo tácito. E que toda a nossa experiência da realidade é ilusória. E que, por depender da maneira pela qual a experimentamos, a própria realidade não tem uma existência definitiva, intrínseca. Visto isso, o que dizer então da linguagem?

O que, no entanto, não me impediria de escrever sobre a "realidade relativa”, essa na qual estamos imersos. Se eu pudesse (ou precisasse) faze-lo. Se o uso explícito dessas referências e termos fosse a verdade do poema. Se fosse legítimo à minha busca "incorporar as formas e jargões”, por exemplo, "da propaganda e do futebol”. No dia em que isso for uma necessidade, pode ter certeza de que se manifestará no poema. No mais, essa questão me dá um extremo cansaço. É como se quisessem que de uma semente de videira nascesse um pé de abacate!

A minha aspiração é a de que, de alguma parte do lugar onde escrevo (e olha que há um custo alto - isso todo escritor conhece - em visitar esse lugar solitário), um verso, uma formulação, uma palavra imantada pela minha busca parta, como uma zarabatana de sentido ou de beleza,e vare a carne do leitor.

Termino, então, com um poema inédito em livro,mas que você, Marcelo, anteriormente já comentou. Em tempo, e só para vocês ficarem contentes: esse poema "se passa” no Rio...
(Comentário referente ao poema Sítio)

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Entrevista ao Plástico Bolha
(jornal de literatura publicado pelos alunos de Letras da PUC - Rio)

Setembro de 2006

"Poesia é a tecnologia de ponta da língua.”

CLAUDIA ROQUETTE-PINTO, carioca, budista e mãe de três filhos, formada em Tradução Literária pela PUC, tem poemas inc1uídos em diversas antologias nacionais e internacionais e cinco livros publicados: Os Dias Gagos (1991), Saxífiraga (1993), Zona de Sombra (1997), Corola (Prêmio Jabuti 2002) e Margem de Manobta (2005).Este último está indicado para o Prêmio Portugal Telecom, notícia que Claudia nos,deu em primeira mão, na tarde chuva e frio em que conversamos. Mas o papo foi caloroso e animado. E o Plástico Bolha ainda, ganhou um poema inédito de Claudia, que você pode conferir na página quatro.

O seu primeiro livro é de 1991 (Os dias gagos). De acordo com Paulo Henriques Britto, "Um livro de estréia, mas de modo algum 'um livro de estreante”. Quando o poeta está pronto para publicar?

Há caminhos para se trilhar, um caminho para o poeta percorrer e não se envergonhar do que escreveu. O primeiro livro tem esse condão. Publicar é como perder a virgindade. É o momento em que o poeta está doido para mostrar seus poemas. É importante para o poeta iniciante buscar interlocutores, professores, outros poetas, para ter um feedback. Mas há uma hora em que o poeta tem de procurar o mundo, isso vai amadurecendo o seu trabalho. Não é que a voz do outro influencie o poeta mas o modifica, faz pensar sobre coisas das quais o poeta está muito próximo para poder enxergar.

A imagem é sempre muito forte nos seus poemas. As imagens cruas também deixam sua marca de realidade violenta. Nos seu livro Margem de Manobra, você aborda temas públicos e controvertidos, como os conflitos em Sarajevo. Este livro marca uma mudança de temática?

Essa é uma visão superficial do que eu faço, um dos dilemas da minha poesia. Isso me deixa um pouco inquieta, às vezes. Muitos pensam que eu mudei de temática e isso me incomoda um pouco. Muitos não percebem (e eu gostaria que todos pudessem perceber ) que, na verdade, quando estou falando de uma paisagem, estou falando de uma paisagem mental. Quando estou falando de uma flor, de uma planta, estou falando de um estado de espírito ou de um processo de pensamento. A minha poesia é algo que se apóia nesses anteparos externos, como uma planta, uma tela. Aparentemente estou falando daquilo, mas na verdade, estou falando até, no próprio fazer poético. Toda a minha poesia está voltada para isso. São duas coisas que, hoje em dia, estão bem claras para mim; são dois centros sobre os quais eu me debruço: o processo de pensamento, que engloba a própria feitura do poema, e o envolvimento amoroso, que é uma questão que me fascina, para a qual nunca encontro resposta (porque não há mesmo). Trabalho com todos os aspectos desse tipo de integração, com questões ontológicas. Mas houve um movimento, sim. O Margem de Manobra é um livro diferente, mais irregular, tem uma quebra maior, o mundo exterior não estava tão nomeadamente presente, essas questões mais sociais. Por isso gosto tanto dele; acho que ele não é um livro tão coeso quanto Corola, que é mais todo fechado. Margem de Manobra tem mais a1tos e baixos, mas ele foi importantíssimo na minha trajetória; e ele tem muito a ver com a minha vida. Ele veio depois de muitas perdas, mortes, muitas mudanças. Então, acho que ele tem muito a ver com tudo isso. Eu fiquei cinco anos sem publicar.

O poeta tem uma função social?

Acho que sim. A função do poeta é falar sobre os assuntos universais mas se aprimorar enquanto instrumento de uma fala que vai tocar, vai varar os outros; mas isso é função de todo artista, não só do poeta. É uma função transformadora, do microcosmo para o macrocosmo. Se eu falei de Saravejo, do menino que levou um tiro (no poema Sítio), foi porque essas coisas me inquietaram me tiraram o sono, me deixaram perplexa, me tocaram primeiro para depois eu falar. Se fossem poemas ruins, de nada ia adiantar eu falar sobre os assuntos. Acho que no caso da poesia, o importante é o "como", não o "quê".

Como era o jornal cultural VERVE, que você dirigiu?

O VERVE nasceu na PUC, entre amigos, alunos de letras e comunicação. Uma pessoa que esteve desde o começo foi a Luciana Sandroni, hoje em dia uma autora respeitadíssima, Felipe Fortuna, diplomata, escritor e crítico, Miriam Moreinos, Pedra Lessa, minha irmã, Mariana Roquette-Pinto, além de Sandra Kogut, Sheila Lírio, Toninha, Ricardo Oiticica e ainda Marcel Souto Maior, hoje um best-seller. Tínhamos colaboradores como Chacal, Fausto Fawcett. Nós éramos inquietos, achávamos que havia pouco espaço para mostrar o que as pessoas estavam fazendo. Nós nos cotizamos e fizemos o primeiro número, o número zero. Depois meu pai se mostrou disposto a investir e conseguimos um financiamento. Nessa época, tínhamos um enorme prazer quando descobríamos alguém que escrevia bem. Quando o jornal acabou, fiquei meio sem identidade, questionei muitas coisas, inclusive por que eu não estava escrevendo. Na verdade, estava escrevendo, mas não estava assumindo. Como também enviavam muitas coisas ruins para o jornal, pude comparar com meus próprios poemas. Publiquei meu primeiro livro, que teve pouca repercussão, mas uma crítica muito dura no jornal. Criei logo uma casca.

Como é o mercado para quem escreve poesia no Brasil?

A palavra mercado não se aplica à poesia. Poesia não é uma coisa comercial. O poeta Manoel de Barros escreveu: "O poema é antes de tudo um inutensílio". Poesia é a tecnologia de ponta da língua. Tem de permitir a liberdade de experimentação, ser ousada, livre. Mas isso também se aplica a qualquer arte. É claro que acho que existem condições que podem ser implementadas para que isso, que é tão vital, tão necessário, seja veiculado. A única justificativa não pode ser o mercado. Essa visão é totalmente equivocada. O problema é a falta de reconhecimento da importância da poesia; devia haver subvenção. Mas a sede por poesia não vai acabar, a sede do ser humano por transcendência, que só a arte traz.

São importantes as oficinas de poesia? Alguém pode aprender a fazer poesia ou o poeta nasce pronto?

Tudo que fomenta, divulga e instrumentaliza é bom. Não acho que ninguém vai sair escritor por ter feito uma oficina, mas acho que a pessoa sai dali um diletante, com a sensibilidade apurada para ser melhor, pode depois encontrar uma carreira de crítico, vai ser alguém que vai fruir muito melhor, que se enriqueceu como ser humano. A sistematização não garante o talento, mas desenvolve alguma coisa, torna tudo mais sério, fundamentado.

E a tradução dos textos do Budismo Tibetano?

Eu me dediquei a isso intensamente por quase cinco anos e mais de perto quando fiz tradução simultânea por dois anos. Fui atendente de um lama; traduzi alguns tatos sagrados, tatos de práticas; eu traduzia do inglês e o lama ajudava nas aplicações. Os textos sagrados tibetanos são todos em versos, poemas longos, lindíssimos. Só se pode penetrar no texto com a explicação do professor, são necessários a transcrição e o comentário.

E os novos projetos?

Agora voltei a fazer colagens e pretendo fazer um livro de colagens com texto de prosa poética.

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O Carioca – Revista de poesia e arte
No 5 – 1998

Esta edição da revista O Carioca traz o poema Últimas Flores, de Claudia Roquette Pinto, e uma entrevista feita por ela com o poeta Armando Freitas Filho.

Claudia Roquette-Pinto – Armando, você uma vez me deu o seguinte conselho: em matéria de poesia, é preciso não entregar todo o ouro ao bandido. O seu texto, que já foi comparado (pelo crítico Silviano Santiago) à brincadeira de chicotinho queimado – não estando mais onde o leitor te busca, deixando pistas – parece estar mais do que nunca voltado para a idéia de indeterminação, de estranhamento. Como você procura resolver, na sua poesia, a tensão entre significação e insignificação, entre o dizível e o incomunicável?

Armando Freitas Filho – O bandido não é o leitor. Ele também não é hipócrita, nem meu semelhante, como queria Baudelaire. O leitor de hoje é ninguém. E o bandido somos nós mesmos querendo nos domesticar, amansar o pelo, cortar as unhas. Essa inquietude que o Silviano apontou em 1985, sempre esteve presente naquilo que escrevo; e só faz aumentar sua freqüência, a cada livro. Atualmente, talvez, eu não deixe nem pistas – já que atravessar pontes, significa o mesmo que queimá-las. Não porque quero, mas porque comigo é assim, para o bem e para o mal, e sendo assim, não resolvo tensão nenhuma, só procuro revelá-la, por ser ela insuportável. É como aproximar, à força, os pólos negativos de dois imãs e escrever de dentro deste campo que se repele. Os poemas, nascidos daí, são problemas sem solução. Eles só terminam por exaustão e não por terem chegado a um fim plenamente consciente ou satisfatório.

CRP – Numa entrevista a O Globo, você afirmou que um dos problemas da nova geração de poetas é uma postura reverente diante da crítica, a busca de uma certa dicção nobre e a pequena assimilação da herança modernista do diálogo e do coloquial, o que geraria o que você chama de “poemas-bibelô” ou “ estilo buquê”. De que maneira você, que viveu a irreverência das décadas de 60 e 70, o amor livre, a era pré-aids, considera que as diferenças existenciais dessas gerações se refletem na poesia?

AFF - Este “pecado”, no fundo, é mais do que conhecido por todo autor, seja ele jovem ou não, o pecado “venial” de querer fazer a coisa certa demais, de escrever com muito medo de errar, o que acaba amortecendo a audácia de que se precisa, para se conseguir um resultado mais forte. O perigo pode estar justo aí: se o “pecado” fosse mortal, estaria à vista, doeria fundo, não poderia fazer seu trabalho de sapa, silenciosamente. Quanto a ter vivido a “liberdade” dos anos 60 e 70, não custa nada lembrar que ela só era disponível mesmo, como atitude porra-louca, com baixa reverberação social naqueles anos, odiosamente fardados. Hoje o aparelho repressor se internalizou e mudou de sigla, falando grosso modo, sem analisar suas origens diferentes: em vez de DOI-CODI, virou AIDS. Como se vê, cada época tem seu “bode” específico. O “mal-estar da civilização” continua, aqui e agora, e só podemos concluir que o medo é o companheiro mais fiel e tirânico da nossa vida.

CRP – No Poema Para João, “com amor e sordidez”, você faz uma crítica, através da paródia, a um tipo de leitura da poesia de João Cabral que parece querer reduzi-la às questões mais aparentes do rigor expressivo, da precisão, em detrimento do que ela teria de mais visceral e “intestino”. Fale um pouco mais sobre a sua “teoria da receita”.

AFF – Acho, na verdade, que estão é fetichizando o rigor, tornando-o fashion, transformando-o em rigor mortis. Acaba sendo uma leitura extremamente redutora da poesia de João Cabral. Ele está sendo até seduzido, hipnotizado, paralisado, a meu ver, por essa litania fácil, esse cantochão condescendente que por tanto ser entoado por esse coro de coroas e coroinhas, o vai convencendo a repetir e salivar as pedras de sua educação que vão virando seixos decorativos nos jardins - de – inverno dos outros! Sem mudarmos de “alimento”, uma boa receita alternativa seria a da pedra drummondiana: a que barra o horizonte, enigmática e intransigente, a que não tem cara nem pergunta, a que não teme a sua sombra – pelo contrário, a cultiva – uma pedra, enfim, indigesta, nada diplomática.

CRP – As imagens do trampolim, da verticalidade e do salto atravessam sua obra. Ainda naquela (excelente) entrevista a O Globo , você recorre a esta imagem como antídoto à postura referencial do poeta contemporâneo diante de um poeta como Drummond: “ apostar nos saltos no escuro a partir dos trampolins que a obra dele deixa”. Como? Como? Como?

AFF – A atitude que nos resta diante dessa magnificência só pode ser melodramática. O salto no escuro em busca da peripécia que o ultrapassará é mortal e somente em tese é factível. Esse salto vai fracassar, é um suicídio anunciado, mas embora saibamos disso, não podemos deixar de tentar, não podemos resistir à tentação de uma vez só, mil vezes. Para as nossas vidas de poeta, trata-se de um desafio e sacrifício irrecusáveis, o momento de grandeza que sobrou para nós no século esplendorosamente drummondiano.

CRP – Duplo Cego é um muito bem acabado, em termos de projeto: do título e da ilustração da capa, passando pelo texto da orelha até chegar ao poema da quarta capa, ele se estrutura ao redor da oscilação, da incógnita, do confronto com o desconhecido, que pode ser o outro ou você mesmo. É um livro, como você disse, sobre relações e é também um dos seus livros mais sombrios. Como já perguntava Ana Cristina César, no prefácio de longa vida (82): “Escrever é viver? Escrever ou viver?” Você pode explicar como se dá, no seu caso, esta mediação entre a vida e a obra?

AFF – Procuro reduzir, ao mínimo, esta mediação. Pertenço à família dos escritores que vivem do seu próprio fígado, principalmente. Escrevo não por desejo, mas por destino, misturando pulsão e impulso, cálculo e acaso. Misturar, aqui, não é combinar, compor. Se não for assim, não serve, pois estaria diluindo essas duas águas fortes. O lugar que consegui, acredito, metendo as mães pelos pés, literalmente, é o que se abre – a cotoveladas – entre a sensação e o sentido. É um lugar apertado, promíscuo. Vida e poesia vêm juntos, na mesma colher, ao que parece para mim. Não obstante, escrevi, há anos, um verso ambíguo: “ a poesia acaba com a vida”. É uma sentença proferida por uma língua bífida, terrível, língua de serpente. Honestamente, não sei qual o sentido, a sensação que me vai morder primeiro. Ou serão ambos?

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