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Por Paulo Henriques Britto
Desde seu primeiro livro, a
poesia de Claudia Roquette-Pinto apresenta algumas características
que vieram a se tornar suas marcas registradas. A que talvez seja
mais comumente associada a seu nome é a forte visualidade. Pode-se
mesmo dizer que, para a maioria dos leitores de poesia, Claudia é
acima de tudo uma poeta de imagens, em cuja obra abundam menções a
flores e folhagens e alusões a obras de arte — quadros,
fotografias, esculturas, móbiles. No entanto, embora seja de fato
um dos recursos mais
importantes na sua obra, a visualidade está presente de modo
particularmente enfático do segundo ao quarto livro dos cinco que
ela publicou até agora, mas na sua mais recente publicação é a
narrativa, e não o jogo de imagens, que assume o primeiro plano. O
que parece ser uma constante em todo seu percurso poético até
agora é uma musicalidade requintada, uma atenção extrema para o
poema como objeto sonoro. Essa musicalidade se manifesta das
formas mais variadas — desde o soneto, na seção inicial de Os dias
gagos, seu livro de estreia, passando pelo verso livre fraturado
que é o modo principal de Saxífraga, e chegando à prosa poética —
forma adotada pela primeira vez em Saxífraga, que se reafirma em
Zona de sombra e, saltando Corola, atinge a plenitude em Margem de
manobra.
Se quisermos apontar alguma
outra característica que está presente do primeiro ao último livro
de Claudia, teríamos que indicar algo que é também uma marca de
geração, um movimento de reação ao espontaneísmo confessional da
poesia marginal: o caráter essencialmente construído e pensado de
sua poesia, sua condição assumida de obra elaborada por alguém que
conhece os recursos de sua arte e os utiliza de modo consciente.
Esse aspecto da poesia de Claudia se reflete também numa certa
impessoalidade de tom, que se torna o modo dominante a partir do
segundo livro — mas que, como veremos, é quebrada num poema muito
recente, divulgado após a publicação de sua última coletânea.
Porém entenda-se que ―impessoalidade aqui não significa frieza
emocional nem concentração na metalinguagem; a poesia de Claudia
Roquette-Pinto é acima de tudo lírica. O que se quer dizer é que o
eu poético que vamos encontrar a partir de Saxífraga não traz
muitas marcas explícitas de individualidade, referências abertas a
classe social, faixa etária, vivências geracionais, filiação
ideológica ou religiosa, nem ao seu percurso biográfico. Essas
marcas sem dúvida existem, mas são discretas, e raramente ocupam
posição de destaque.
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Ciranda da Poesia- CRP por Paulo
Henriques Britto- Eduerj 2010
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Por Iumna Maria Simon e Vinicius
Dantas
Resumo:
Este artigo procura dimensionar a importância de Corola (2000), de
Claudia Roquette‑Pinto, no quadro da poesia contemporânea. A
partir de elementos que compõem as figurações e as ambigüidades
sintáticas de seu lirismo simulado, identifica‑se a peculiaridade
da voz feminina que, confinada na cena de um jardim, fala nos
poemas. A análise textual mostra o funcionamento conflituoso das
fantasias de autodestruição e o estudo do medo como componentes
essenciais de uma poesia que expressa em toda a sua atualidade a
experiência de um corpo que não quer morrer.
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Consistência de Corola - Iumna
Simon - Novembro de 2009
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Por Iumna Maria Simon
Resumo:
No panorama recente da poesia brasileira surpreendeu o
aparecimento, em 2001, do poema “Sítio”, de Claudia Roquette-Pinto,
poeta até então tida como intimista, metaforizante, trancada no
seu mundo privado e burguês. O foco desta abordagem é discutir
como foi possível à autora formular nesse poema um estudo sobre o
medo e a violência, sem abrir mão da sua imagética introspectiva e
da sua experiência poética anterior, centrada numa escrita
referencialmente rarefeita. A análise em detalhe do poema procura
registrar a conversão da opacidade, do lacunar e da indeterminação
em elementos de caracterização da violência urbana e da miséria
emocional dos protegidos. Aí se entrelaçam portanto a atualidade
do processo histórico-social brasileiro, a vulnerabilidade da
poesia e as carências do sujeito poético.
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Situação de Sítio - Iumna Simon -
Novembro de 2008
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Por Heloísa Buarque de Holanda
O mais importante exemplo da poesia e da dicção femininas dessa geração parece ser a obra de Claudia Roquete-Pinto. Claudia mostra uma forte “refuncionalização” dos sentidos e uma inclinação visceral em não olhar para dentro de si, mas para fora, para o mundo, em situar-se, em mapear com precisão o território onde se encontra, usando e abusando da chamada sensibilidade ou olhar feminino. E o que a poeta vê é a violência modulada em várias claves: erótica, familiar, amorosa, social...
Heloísa Buarque de Hollanda, in Catálogo da Exposição Manobras Radicais, com aritstas visuais mulheres, no CCBB
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E-mail de Adriana Lisboa
Setembro de 2005
Claudia,
Em primeiro lugar, parabéns pelo seu café literário, obrigada por me citar, e fico feliz em saber que temos no Bandeira um livro de cabeceira em comum.
Estive na Argumento na terça e saí de lá com três exemplares do seu livro: um deles vai pra Luanda (junto com o Paulo H. Britto e o Nikos Kazantzakis), para o meu amigo Ondjaki, escritor fabuloso e jovem em vias de ser lançado aqui pelo sempre empreendedor Paulo Roberto Pires. O outro foi uma encomenda da minha amiga Raquel (Abi-Sâmara), que está dando na Estação das Letras um curso de poesia (não oficina, mas aulas de apreciação).
Bem, o terceiro exemplar era o meu, claro. Li alguma coisa aleatoriamente, para ir economizando, para manobrar à margem e sem pressa, mas mesmo isso já foi uma aprendizagem, tanto no sentido literário quanto no sentido de fruição estética que, além do prazer puro e simples, que já se justifica, faz de nós pessoas melhores. Como minhas quatro horas a bordo de Henry Moore, no Paço, para depois ouvi-lo, no vídeo, dizendo que a boa arte, se "é" para alguma coisa, é para isso - para aprimorar nossos sentidos. Nesse sobrevôo-com-mergulhos, tipo gaivota, já elegi dois queridos: "Queda" e "Homem: modo de abrir". Sim, e o belíssimo poema que você (?) escolheu para a quarta capa.
Parabéns, é só o que posso te dizer, e obrigada pela sua generosa existência poética neste mundo.
Beijo e admiração da
Adriana
www.adrianalisboa.com.br
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E-mail de Francisco Bosco -
Novembro de 2004
Fala, Adílio, não, minha demora não teve nada a ver com ter ou não gostado; é que, como eu te disse, andei atolado de coisas (preparação de aulas, monografia do doutorado, resenha do eucanaã para o jb, etc), e também porque gosto de deixar os pensamentos "marinando", deixá-los amadurecer. Antes de tudo, vou antecipar o "ps", porque você já deve ter ficado curiosa: Adílio foi um grande meio-campo do flamengo, camisa 8, volante do maior time da história do rubro-negro, aquele campeão mundial em 81. Adílio era famoso por jogar em espaços pequenos (habilidade que ele desenvolveu no futebol de salão), ele se safava de dois marcadores apertado na linha lateral, espremido na bandeirinha de escanteio - Adílio era o craque do espaço curto, onde a "margem de manobra" era pouca, quase nenhuma. Acho que você tem algo de Adílio, Claudia, dessa habilidade dentro do exíguo, habilidade de conduzir a sintaxe por caminhos estreitos.
(...) sinto agora uma soltura maior de sintaxe e, principalmente, uma mudança do campo de ação do poema: da intuição sobre o fazer poético à investigação poética das sensações do corpo. O corpo é o campo de ação de sua poesia nesse livro. É uma poesia das sensações - peles, superfícies. Mesmo o coração (em torno do que ocorrem algumas das imagens mais belas e precisas dos poemas - como o coração que cai como um elevador descontrolado, ou o coração que volta a latir na sua gaiola escura), mesmo o coração, eu dizia, em seus poemas pertence antes ao campo das sensações que ao campo dos afetos. Os afetos são irrepresentáveis, remetem à profundidade. As sensações são velozes, escorregadias, ocorrem na superfície. Há, sim, afetos nos poemas (o luto, a memória dolorosa, tantas vezes o amor), mas sinto como se os poemas estivessem sempre em busca das sensações, de sua velocidade. É preciso um Adílio para capturar esses relâmpagos do corpo - e pô-Ios de pé. O Deleuze (num livro que amo, Uma filosofia da arte pelos afetos) diz que todo o desafio da arte é pôr as sensações - ou os afetos - de pé. "Pôr de pé" é fazer com que o que se escreve sobreviva, não à morte, mas à vida: fazer com que as sensações sobrevivam ao corpo daquele que as experimentou, no instante mesmo em que o vivido se apaga, as sensações se apagam. (Claudia, o ofício que mais se assemelha ao da escrita é o do ator de filme pornô: para eles, como para nós, toda a questão se resume em pôr a coisa de pé!) recapitulando, por enquanto: um livro onde a "margem de manobra" é o corpo, uma investigação poética das sensações, onde a sintaxe é mais solta que “Zona de sombra'”, e os poemas apontam para uma abertura maior ao mundo. Um livro onde o jogo proposto ao leitor é o de desdobrar o tempo condensado por suas elipses, por sua sintaxe. Um livro em que os poemas não se entregam à primeira investida, onde o trabalho do sentido é lento, exigente. Claudia, aqui começa a questão que eu teria a lançar para você. Vou tentar expô-la através de seu poema "sítio". Considero esse um poema, numa palavra, foda. É foda esse poema - é de fuder, como diriam os baianos. Nele estão as marcas habituais de sua poesia: a metáfora precisa e imprevisível (a centopéia dos carros no viaduto), a sintaxe trabalhada, a economia de meios, a concisão. Nele está ainda o que apontei como sendo, para mim, uma inflexão nova de sua poesia (e uma inflexão da poesia de 2000 em relação à da década de 90): a abertura para o mundo, a exposição à cidade, a seus dramas. Nele está, é claro, o corpo. Mas, principalmente, nesse poema acontece, para mim, isso: a surpresa, a exclamação, o inesperado. Nele, a concisão, a elipse, as operações furtivas do poema estão à serviço da preparação de um gesto preciso e claro (o drible de Adílio), que resulta num "caralho!", mentalmente exclamado pelo leitor. É claro, Claudia, que um poema assim é raro, mas o que que quero dizer é que a operação dele é um pouco diferente do que percebo ser a operação habitual de seus poemas. Essa diferença de operação, a meu ver, está no equilíbrio perfeito que ele consegue entre esconder e revelar, entre a obscuridade e a clareza, entre a lentidão e a velocidade. Eu, Claudia, sou, como o leitor de Montaigne, "imediatista": gosto muito quando o poema transmite um impacto logo de primeira. Nos poemas que você me mandou, só em poucos momentos percebo uma operação que privilegie a clareza como via para o surgimento do inesperado, do absurdo (como em “Azul"), do surpreendente. De uma forma geral, a operação de seus poemas tende ao furtivo, à lentidão, à elipse. Essas características - o furtivo, a lentidão, a elipse - são marcas de sua poesia, e nelas você já atingiu uma espécie de mestria. Não tenho como deixar de dizer, entretanto - eu, um leitor tão idiossincrático quanto qualquer outro -, que naquele que considero seu melhor poema nesse livro ocorre uma economia diferente dessas características, com uma dose maior de clareza e de velocidade. Esse leitor, eu, privilegia isso. Enfim, Claudia, posso resumir minhas impressões de leitura assim: penso que os poemas são bastante homogêneos do ponto de vista da densidade, da consistência; acho que estão disseminados, neles, achados "justos", metáforas imprevisíveis; acho que você consegue, sempre, pôr as sensações de pé. É, em suma, um livro muito concentrado, consistente (como não poderia deixar de ser). De resto, fica essa questão do poema "Sítio" - de sua raridade e do que, nele, possa talvez ser buscado como operação de escrita. Um beijo grande do seu,
Vanderlei Luxemburgo.
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