a noite é um sopro doce e degenera
o bafo do que ainda vai morrer
o som da roda o asfalto não sossega
e chispa o trilho do trem o trilho do trem
a noite é uma espera fraudulenta
que as horas tecem sempre recomeça
as árvores esgarçam sua pele
com unhas de fumaça
a noite insone torce e mastiga
o som que a boca nunca pronuncia
a noite entrega a carne arrependida
à avidez da lâmina do dia.
estrelas domadas, coelhos
levitam pasmos
cada boca uma vogal.
imóveis, no centro,
cochilam os quartos crescentes
- aparas das unhas de um deus.
nada transborda mas
o ar cheio de jogo
brota gestos do caos.
satélites - onde o teu corpo?
dedos tênues as redes de luz
(entreabrem uns olhos de éden)
entre os cílios, meu suborno.