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miolo

INGLÊS

Versão de Renato Rezende

Pendant
Georgia O’Keefe

laughs the unashamed tit
there the tongue’s tip
awakens another anatomy
rolls of rare leaves
lift as hair
opened woman seen from the knees
displicently
hangs
as in eden

Pingente (flor da banana) (De Saxífraga)
Georgia O’Keefe

o bico impudico ri
a nesga da língua ali
desperta outra anatomia
em rolos as
folhas raras
arvoram em pelo
mulher aberta vista dos joelhos
pendes
displicente
como no éden

Versões de Patrícia Glover

In Eden

ask her to undress
begin with the eyelashes
follow the wire of
daily utensils
(insomnia tacking itself
 in gunshots
the childhood      its disguises)
it is essential
to pull out the whole face
let the eyes rest
side by side with shoes
in the swaying suede
of the bedroom
this, if one wants (unsuspecting)
to touch what is threading (a pair
of preys, topaz)
in the space between ribs
open the fastener she unfastens
in the dark the quadrant where
the light and its crests ebb

Poetic Mode
to Manoel de Barros

going down the river the feet
take the best
stone never the
firmer one follow
ing the step,
stone: the one that
of silt was
boulder now is
fall the one that
of shade was
glimpsed on the ground

Sordino
(after a ballet of Balanchine)

I
She can fly
(he believes)
in the movement
that loosens inside
—between the arms
that a needed apollo
raised in time for this allegory—
as if dense
though light
the body delaying gives
into wings
—inverted wings,
in her the flight
is not lift: release—
as if wind (or
that, which intimate, levitates)
blowing from inside
on the still water of audience raised her
even before
the palafita-fingers
of a partner touch her
(like they touch now) her
ribs
where a pair of wings beats

II

the body an arch
stringed for flights
(or is she
the very arrow
that darts?)

Submerged Poem

I see: fish-eye that
deflects the eel hand
the smooth skin down to
the navel and soon
the flora from where it surfaces
(in the groin) the
red-bearded
ignited brute am
phibian: hairless

fingers like tentacles
and crisp sand
ing the back below a
bove below shines
the effort—brave
fish trying to escape but

there he is by the slit that
bubbles (goggles?)
purple bulges and dives in
cinder snaps
and now shrivels
needlefish and
ebbs
ebbs

volta

No éden (De Zona de Sombra)

peça a ela que se desnude
começa pelos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância      seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza
a luz e suas arestas

Modo poético (De Saxífraga)
para Manoel de Barros

descendo o rio os pés
aceitam a melhor
pedra nunca a
mais firme con
sequente ao passo,
pedra: a que
por limo era
seixo agora é
queda a que
por sombra vislum
brava-se num chão

Em surdina (de Zona de Sombra)
(para um balé de balanchine)

I
ela pode voar
(ele acredita)
no movimento
que desamarra dentro
- de entre os braços
que um necessário apolo
ergueu a tempo para essa alegoria -
como se denso
embora leve
detendo-se o corpo se desse
em asas
- asas ao inverso,
que nela o vôo
não alça: desata -
como se um vento (ou
o que, íntimo, levita)
soprando de dentro
sobre a água fixa da platéia a erguesse
antes mesmo
que os dedos-palafita
de um parceiro a tocassem
(como tocam agora) as
costelas
onde um par de asas se agita

II

o corpo um arco
encordoado para fugas
(ou será ela
a própria flecha
que dispara?)

Poema submerso (de Saxífraga)

olho: peixe-olho que
desvia a mão enguia
a pele lisa a
té o umbigo e logo
a flora de onde aflora
(na virilha) o
barbirruivo a
ceso bruto an
fibio:glabro

dedos tão tentáculos
e crispam esmer
ilham dorso abaixo a
cima abaixo brilha
o esforço - bravo
peixe tentando escapar mas
ei-lo ao pé da frincha que
borbulha (esbugalha?)
roxo incha e mergulha em
brasa estala
e agora murcha
peixe-agulha e
vaza
vaza

ESPANHOL

Versões de Adolfo Montejo Navas

Jazz

la noche teje alrededor
hay una luna una bó
veda un rostro de lilian gish
que alguien dejó a propósito.
detrás de la valla la
aspereza azul levita
y vuelve a hundirse
abriendo plata y pavor en esa hipnosis.
corren notas por la escalera
perlas las teclas
los escalones.
he aquí: y después
un saxo despierta flores en las caderas.
¿De qué lugar de mí vierto este caos?

Castañas, mujeres

si abiertas
con la diestra sorpresa
de pequeñas manos
ciegas a tal alfabeto
y la nesga -ya marrón-
de la piel hiere
más que la tontería de los pinchos
mira como
la yema late:
ella y ella
desabrocha
entre los dedos

Vano

palabra-persiana
poema-lucidez
imanta el aire fuera del cuarto
de las frases un otoño
próximo a la ventana
oro tonto sobre la tarde derribada
entretanto, entre dientes
(y cuatro paredes)
tu boca aún invoca
equívoca y pobre.
en el vello más allá de la vidriera
los dioses-de-todo-lo-que-importa
cierran los párpados de cobre

Trecho de Se cada hora

Como una lava (llena de puntas)
como lo que se derramaba
de mi pecho para su vestido
(jersey florido)
de pie, inaplazable,
a las cinco, en el portalón
- para, mano con mano-,
subir la ladera hasta casa
mientras la noche-lagarta
suelta el capullo
despliega las alas
desata el azul-temblor-plata
por encima de nuestras cabezas

volta

Jazz (de Os Dias Gagos)

a noite tece ao redor.
há uma lua uma abó
bada um rosto de lilian gish
que alguém deixou de propósito.
atrás da mureta a
aspereza azul levita
e torna a afundar
abrindo prata e ror nessa hipnose.
correm notas pela escada
pérolas as teclas
os degraus.
eis: e depois
um sax desperta flores nos quadris.
de que lugar em mim verto esse caos?

Castanhas, mulheres (de Saxífraga)

se abertas
com a destra surpresa
de pequenas mãos
cegas a tal alfabeto
e a nesga – já marron –
de pele fere
mais que a tolice dos espinhos
vê como
o gomo lateja:
ela e ela
desabotoa
entre os dedos

Vão (de Zona de Sombra)

palavra-persiana
poema-lucidez
imanta o ar fora do cômodo
das frases um outono
rente à janela
ouro tonto sobre a tarde derrubada
entrementes, entre dentes
(e quatro paredes)
tua boca ainda invoca
equívoca e pobre.
na penugem além da vridrça
os deuses-de-tudo-o-que-importa
cerram as pálpebras de cobre

Trecho de Se cada hora ( de Corola)

como uma lava (cheia de pontas)
como o que se derramava
do meu peito sobre o seu vestido
(jérsei florido)
em pé, impreterível,
às cinco no portão
- para, mão na mão,
subirmos a ladeira até a casa
enquanto a noite-lagarta
larga o casulo
desembrulha as asas
desata o azul-trêmula-prata
por cima das nossas cabeças.

Versões de Rodolfo Mata

Todo el día

Todo el día persiguiendo una idea:
luciérnagas ebrias contra el tejido
de las especulaciones, y ninguna
floración, ni siquiera
un botón incipiente
en el recorte de la ventana
ofrece foco al hipotético jardín.
Lejos de aquí, de mí
(más hacia adentro)
bajo al pozo de silencio
que en gerundio traspasa madrugadas
ora blanco (como labios de espanto)
ora negro (como ciego, como
miedo atado a la garganta)
sujeta apenas por un hilo, frágil y físil,
ínfimo al infinito,
mínimo donde el superlativo choca
y es todo de lo que dispongo
hasta dispensar el sueño de un suelo probable
hasta que mis pies se claven
en el rostro de esta última flor.

Suspendido en la hamaca

Suspendido en la hamaca del sueno en la tarde indecisa
entre ser, aún, tarde, o verse noche
el cuerpo, en su sopor, no cree
siquiera en la hipótesis de un cuerpo
(en muerte, en vida, y
qué decir del encuentro).
Es cierto que allá afuera algo sucede,
insectos vuelan, personas (sus ruidos)
suben, bajan,
piensan que eso es todo:
la tierra abajo arriba el cielo
y nubes.
A veces un rayo
-de vez en cuando-
tanto cuanto necesita la hoja
para extender su bandera tonta
al aire mezquino
(y antes que cualquier oruga la alcance).
Por lo demás es este sueño que se prolonga
hasta la sombra,
en la tarde en avalancha.

Aún húmedas

Aún húmedas sobre la hoja,
rocío oscuro que posa
en la piel,
imperiosa y desnuda.
Mal desgarradas de la pluma,
cada pequeña curva
tatúa las ideas en la superficie ácida.
Imagino esto,
si te veo inclinado
sobre la mesa el peñasco
ojos anochecidos
despenándote en el hiato de ias ventoleras.
Esto, mientras imprimo
tus Himnos a la Noche
en estas hojas comunes,
palabra por palabra coagulándose
en la blancura ininterrumpida, salidas
de la boca de la máquina
como una carta por la rendija de la puerta
doscientos años más tarde y
húmedas, todavía.

volta

O dia inteiro (de Corola)

O dia inteiro perseguindo uma idéia :
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.

Suspenso na rede (de Corola)

Suspenso na rede do sono na tarde indecisa
em ser, ainda, tarde, ou ver-se noite
o corpo, em seu torpor, não acredita
sequer na hipótese de um corpo
(em morte, em vida, e
o que dizer do encontro).
É certo que lá fora algo acontece,
insetos voam, pessoas (seus ruídos)
sobem, descem,
pensam que isso é tudo:
a terra embaixo acima o céu
e nuvens.
Às vezes um clarão
- de raro em raro-
o tanto quanto necessita a folha
para estender sua bandeira tola
no ar mesquinho
(e antes que qualquer lagarta a alcance).
De resto é este sono que se alonga
até a sombra,
na tarde em avalanche.


Ainda úmidas
(de Corola)

Ainda úmidas sobre a folha,
orvalho escuro que pousa
na pele,
imperiosa e nua.
Mal desgarradas da pena,
cada pequena curva
tatua as idéias na superfície ácida.
Isto imagino,
se te vejo debruçado
sobre a mesa o penhasco
olhos anoitecidos
despencando no hiato das ventanias.
Isto, enquanto imprimo
os teus Hinos à Noite
nestas folhas ordinárias,
palavra por palavra coagulando
na brancura ininterrupta, saídas
da boca da máquina
como uma carta pela fenda da porta
duzentos anos mais tarde e
úmidas, ainda.

ALEMÃO

Versões de Carlos Abbenseth

Besiegt (Vencida)

Besiegt vom Rosenduft
gebrochen
vom rasanten Ansturm der Geigen,
die das Zimmer schwanken lassen,
gebrochen
wie Reisig irgendwo
im inneren des Körpers knackt
und etwas Unentwirrbares auslöst.
Hinabgestiegen: Fluss, Staunen,
dazwischen Steine, Taumel
(die Augen halbgeschlossen, das Gesicht verschleiert es),
nackt, ohne Kompass kentert sie
taucht ein
sinkt hinab
in die Wonne der Niederlage.

WAS IN MEINEM MUNDE WOHNT?
(O que mora em minha boca?)

Was in meinem Munde wohnt?
Der Kardendistel Stachel.
Was meine Augen verschmutzt
und die Rose verdrängt?
Was, ausser dem Regen spärlicher Haare,
im Zimmer abfällt und alles,
was es berührt, zu Rost macht?
Was sich zwischen Glas und Stahl
hinter den Spiegel hinstellt
und das andere Gesicht nicht zeigt
und scheitert?

Und ein Verdacht – welcher? – stösst
mit seinem Schmetterlingsflügel
an den Zwischenraum der Dinge?
Der Lichtkranz verschwindet am müssigen Abend.

Vencida (de Corola)

Vencida pelo perfume das rosas,
partida
pela investida dos violinos em rasante
desequilibrando a sala,
partida
como um graveto estala
em algum recanto do corpo
e deflagra o que não se decifra.
Descida no curso de um susto
entremeado de vertigens
(a meia-pálpebra, o rosto dissimula)
nua, sem bússola ela emborca
mergulha
afunda
na delícia da derrota.


O que mora em minha boca?
(de Corola)

O que mora em minha boca?
O espinho do cardo.
O que suja meus olhos,
Alijando a rosa?
O que cai, fora a chuva de uns cabelos,
no quarto, e enferruja
a tudo que toca?
O que se aloja atrás do espelho
entre vidro e aço
e recusa a outra face,
e malogra?
Que suspeita resvala
sua asa de mariposa
no intervalo
entre coisa e coisa?
O halo se esvai na tarde ociosa.

Versões de Bianca Wandt e Carlos Abbenseth

BELAGERUNGSZUSTAND (Sítio)

Der Berg brennt.
Die lästige, dichte Luft
erschwert die kleinste Bewegung,
als ginge man in einer anderen Atmosphäre,
zwischen verstummten feuchten Lappen,
in einer schmutzigen Eischneebrühe.
Die Autos auf dem Viadukt
schalten den Gang zum Tausendfüssler:
brennende Augen, Dieselschweiss,
Motorgeräusch, dumpfe Verzweiflung.
Eigentlich die Zeit, da die Sonne untergeht
- aber wie kann man unter dieser Staubkuppel,
diesem verdrehten Himmel,
ihre Bahn verfolgen?
Der Blick aufs Meer bringt keinen Trost:
ist es doch eben ein zitternder, riesiger Hund,
der Gallenschaum speit
und an unserer Haustür schliesslich verendet.
Ein feindlicher Flaum
legte sich auf die Chrysantemenblätter,
und Tag für Tag werden dunkler
die Augen der Margheriten,
das Herz der Rosen.
In der tiefen Nacht,
im gekühlten Kasten herrscht Stille,
fällt eine Ladung Nadeln mir brennend
auf die Trommelfelle, auf die Augenlider nieder:
Der Junge spielt auf dem Balkon.
Man sagt, er hat es nicht gemerkt.
Wie hätte er sonst sein Gesicht
noch zur Seite wenden können: „Vater!
Ich glaube, ein Tier hat mich gebissen!“, als
die Kugel ihm den Kopf durchbohrte?

Sítio (de Margem de Manobra)

O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
- mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: -“ Pai!
acho que um bicho me mordeu!” assim
que a bala varou sua cabeça?

MATT (Opaco)

Finstere Morgenröte dieses Körpers,
im ohnmächtigen Licht.
Was ausser mir aufwacht,
schwebt im verschwommenen Zimmer
zwischen der über Hortensien glitzernden Welle
und dem Gedanken, dem matten:
Wieder einen Tag verkehrt durchqueren,
den kalten Brei der Gespräche
vom Tellerrand essen,
blöde Gesichter, Gummigesichter,
flach gegen meinen Himmel geschlagen
(wo eben die wahren Dinge schweben:
Feuerspirale,
dein Mund an meinem Mund,
die Worte aus dem Traum, die verlorenen).

volta

Opaco (de Margem de Manobra)

Obscura aurora desse corpo
na luz desacordada.
O que, além de mim, desperta
no quarto vago, vaga
entre a onda iluminada sobre a hortênsia
e o pensamento, opaco:
mais um dia a atravessar do avesso,
comendo pelas beiradas
a papa fria das conversas,
as caras de tacho e borracha
chapadas contra o meu céu
(onde bóiam as coisas de verdade:
espirais de fogo,
sua boca contra a minha,
as palavras do sonho, que perdi).

Versões de Carlos Abbenseth | Übersetzung Carlos Abbenseth

Den ganzen Tag (O dia inteiro)

Den ganzen Tag jage ich einer Vorstellung nach:
Schwindlige Leuchtkäfer gegen das Netz
der Spekulationen, und keine
Blüte, nicht einmal
die Andeutung einer Knospe
im Fensterausschnitt
verleiht dem hypothetischen Garten einen Fokus.
Weit von hier, von mir
(weiter innen)
steige ich in den Brunnen aus Stille hinab:
ein Gerundium, das die Nacht durchzieht,
einmal weiss (wie Lippen aus Staunen)
einmal schwarz (wie blind, wie
die Kehle, angstverschnürt)
ein Faden allein, zart, zerreissbar,
schwindend klein an der Grenze des Superlativs
hält mich fest,
über nichts mehr verfüge ich,
bis ich auf den Traum eines wahrscheinlichen Bodens verzichte
bis sich meine Füsse festnageln
in das Gesicht dieser letzten Blume.

Unter der hefe (Sob o fermento)

Unter der hefe der Sonne, die Dinge
schwerelos, die Dinge
entvölkert,
das Gegenteil ihrer selbst,
alle entäussert.

Auf der Gluthaut der Dinge
der Gedanke: er geht über,
dringt nicht ein, breitet sich aus und
sammelt sich wieder

in Tropfen, Schweiss.

Fast nichts erreicht
das erstarrte Fischpaar
im unbewegten Wasser,
das Augenpaar hinter der Gesichts-
maske. Der erstaunten Stille
Hufschlag
einen Anschlag Angst.

Der Wasserteich im Traum
Schattenring das Gedächtnis
auf der gedehnten Fläche
willkürlich weiss
- und das Rauhe der Zikaden
unter der einschläfernden Sonne.

Ein kleines Rechteck
der Schatten des Hauses
ringsum der Wellenkamm der Wiesen
die Klage der Zikaden
war wie ein Sterben.

Gelb vom Spreu, schwarz
von verbrannten Resten
die Goldblumen die Wörter zerschneiden
in versunkenen Pausen
die Landschaft, Schwindler.

Erklärt ein Gesicht diesen Augenblick?
Das misstönende Atom aus Stille
in der stacheligen Luft?
Die Traumblase, platzend gegen die Haut,
mit einem Gähnen?

Geisel des Augenblicks des Schreibens –
Schlafmoment im Schoss des Verlangens –
dicht am Ertapptwerden.

Noch feucht (Ainda úmidas)
für Novalis

Noch feucht auf dem Blatt,
schwarzer Tau, der sich legt
auf die Haut,
die gebieterische, nackte.
Kaum von der Feder abgelöst,
jede kleine Kurve
tätowiert die Gedanken auf die saure Oberfläche.
So stelle ich mir es vor,
wenn ich dich sehe
gebeugt über den Tisch, den Felsen
Nachtaugen
sich stürzend auf die Lücken der Stürme.
So, während ich deine
Hymnen an die Nacht
auf diese gewöhnlichen Blätter drucke,
jedes Wort ein Gerinnsel
im ununterbrochenen Weiss,
sie kommen vom Maschinenmund
wie ein Brief durch den Schlitz an der Tür
zweihundert Jahre später und
noch feucht.

Schreiben (Escrita)
(Muttertag)

Schreiben,
immer du: du befreist mich
von der Schwelle des bevorstehenden Nichts,
das in Schichten gefährlicher Gedanken
und Wörter aufbraust,
Bakterienstämme, die der Lebensdroge widerstehen.
In der Brust, atemflach,
(und ich nehme ihn gern auf,
den beengenden Ring)
den Blumenkranz der Versprechen
blühen hören.
Und so, Königin
- so barfuss wie ein Faschingskönig-,
zergeht unter meinen Füssen
der leichtglänzende Flitter, während
das Ballongesicht der Parade
bei jedem Schwenken
das Lächeln des Erhängten zeigt.

volta

O dia inteiro (de Corola)

O dia inteiro perseguindo uma idéia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.




Sob o fermento
(de Corola)

Sob o fermento do sol, as coisas
desprovidas de peso, as coisas
despovoadas,
o contrário de si mesmas,
todas no exterior.

Na pele abrasada das coisas
o pensamento entorna,
não penetra, espalha e
torna a reunir-se
em gotas, um suor.

Quase nada alcança
o par imobilizado
de peixes na água que estaca,
de olhos na mancha
do rosto. À calma estupefata
cascos apondo
um toque de temor.

O tanque dentro do sonho
anel de sombra a memória
na superfície estirada
arbitrariamente branca
_ e o áspero das cigarras
sob o sol narcotizante.

Pequeno retângulo em sombra
projetado pela casa
à volta ondulava a campanha
o lamento das cigarras
era como um estertor.

Amarela dos restolhos, negra
dos restos queimados
a intervalos absortos as flores
de ouro as palavras cortam
a paisagem, impostoras.

Um rosto explica este instante ?
O átomo dissonante de silêncio
no ar que enfarpela ?
A bolha do sonho explodindo
contra a pele, num bocejo ?

Refém do instante em que escrevo,
de sono aninhado ao desejo,
vizinho do flagrante.


Ainda úmidas ( de Corola)
a Novalis

Ainda úmidas sobre a folha,
orvalho escuro que pousa
na pele,
imperiosa e nua.
Mal desgarradas da pena,
cada pequena curva
tatua as idéias na superfície ácida.
Isso imagino,
se te vejo debruçado
sobre a mesa o penhasco
olhos anoitecidos
despencando no hiato das ventanias.
Isso, enquanto imprimo
os teus Hinos à Noite
nestas folhas ordinárias,
palavra por palavra coagulando
na brancura ininterrupta, saídas
da boca da máquina
como uma carta pela fenda da porta
duzentos anos mais tarde e
úmidas,ainda.


Escrita (de Corola)


Escrita,
é sempre você quem me resgata
do limiar do iminente nada
que borbulha
em camadas de pensamentos perigosos
e palavras,
cepas resistentes à droga da vida.
E no peito, que quase não respira,
(sobre o qual de bom grado recebo
o anel que aperta)
ouvir florescer
o buquê de promessas.
Assim, rainha
- tão descalça quanto um rei de carnaval -
sob os pés os paetês de brilho fácil
se extinguem ao passo
que a cabeça-balão-de-parada
a cada meneio exibe
o sorriso do enforcado.

 

 
© 2006 claudia roquette-pinto | contato